A ESCOLHA DE MARINA SILVA!

Assim, como Sofia, ( do livro A escolha de Sofia de William Styrone), que teve que escolher qual de seus 2 filhos pretendia deixar assassinar, Marina Silva, canditada derrotada em primeiro turno nas eleições presidenciais brasileiras, mas com expressiva votação, também ela, se viu num dilema:- Qual dos candidatos apoiar, uma vez que seu apoio seria decisivo para qualquer das partes....A sua escolha não poderia se limitar  a  preferências partidárias, mas, e principalmente,  teria que ser baseada em compromisso com suas ideologias.....Assim como eu, milhões de brasileiros, num primeiro momento, se decepcionaram com sua decisão!....Mas, lendo na íntegra sua carta aos candidatos, se pode compreendê-la!....


É uma carta bastante longa, mas importante a leitura àqueles que querem compreender a política brasileira! 


 


 


 


Carta Aberta aos Candidatos à Presidência da República


 


Prezada Dilma Roussef,


Prezado José Serra,


 


Agradeço, inicialmente, a deferência com que ambos me honraram


ao manifestar interesse em minha colaboração e a atenção que


dispensaram às propostas e ideias contidas na “Agenda para um


Brasil Justo e Sustentável” que nós, do Partido Verde, lhes enviamos


neste segundo turno das eleições presidenciais de 2010.


Embora seus comentários à Agenda mostrem afinidades importantes


com nosso programa, gostaríamos que avançassem em clareza e


aprofundamento no que diz respeito aos compromissos. Na verdade,


entendemos que somos o veículo para um diálogo de ambos com os


eleitores a respeito desses temas. Nesse sentido, mantemo-nos na


posição de mediadores, dispostos a continuar colaborando para que


esse processo alcance os melhores resultados.


Aos contatos que tivemos e aos documentos que compartilhamos,


acrescento esta reflexão, que traz a mesma intenção inicial de minha


candidatura: debater o futuro do Brasil.


Quero afirmar que o fato de não ter optado por um alinhamento neste


momento não significa neutralidade em relação aos rumos da


campanha. Creio mesmo que uma posição de independência,


reafirmando ideias e propostas, é a melhor forma de contribuir com o


povo brasileiro.


Já disse algumas vezes que me sinto muito feliz por, aos 52 anos,


estar na posição de mantenedora de utopias, como os brasileiros que


inspiraram minha juventude com valores políticos, humanos, sociais e


espirituais. Hoje vejo que utopias não são o horizonte do impossível,


mas o impulso que nos dá rumo, a visão que temos, no presente, do


que será real e terreno conquistado no futuro.


É com esse compromisso da maturidade pessoal e política e com a


tranquilidade dada pelo apreço e respeito que tenho por ambos que


ouso lhes dirigir estas palavras.


Quando olhamos retrospectivamente a história republicana do Brasil,


vemos que ela é marcada pelo signo da dualidade, expressa sempre


pela redução da disputa política ao confronto de duas forças


determinadas a tornar hegemônico e excludente o poder de Estado.


Republicanos X monarquistas, UDN X PSD, MDB X Arena e, agora,


PT X PSDB.


Há que se perguntar por que PT e PSDB estão nessa lista. É uma


ironia da História: dois partidos nascidos para afirmar a diversidade


da sociedade brasileira, para quebrar a dualidade existente à época


de suas formações, se deixaram capturar pela lógica do embate entre


si até as últimas consequências.


Ambos, ao rejeitarem o mosaico indistinto representado pelo guardachuva


do MDB, enriqueceram o universo político brasileiro criando


alternativas democráticas fortes e referendadas por belas histórias


pessoais e coletivas de lutas políticas e de ética pública.


Agora, o mergulho desses partidos no pragmatismo da antiga lógica


empobrece o horizonte da inadiável mudança política que o país


reclama. A agressividade de seu confronto pelo poder sufoca a


construção de uma cultura política de paz e o debate de projetos


capazes de reconhecer e absorver com naturalidade as diferentes


visões, conquistas e contribuições dos diferentes segmentos da


sociedade, em nome do bem-comum.


A permanência dessa dualidade destrutiva é característica de um


sistema politico que não percebe a gravidade de seu descolamento


da sociedade. E que, imerso no seu atraso, não consegue dialogar


com novos temas, novas preocupações, novas soluções, novos


desafios, novas demandas, especialmente por participação política.


Paradoxalmente, PT e PSDB, duas forças que nasceram inovadoras


e ainda guardam a marca de origem na qualidade de seus quadros,


são hoje os fiadores desse conservadorismo renitente que coloniza a


política e sacrifica qualquer utopia em nome do pragmatismo sem


limites.


Esse pragmatismo, que cada um usa como arma, é também a


armadilha em que ambos caem e para a qual levam o país. Arma-se


o eterno embate das realizações factuais, da guerra de números e


estatísticas, da reivindicação exclusivista de autoria quase sempre


sustentada em interpretações reducionistas da história.


Na armadilha, prende-se a sociedade brasileira, constrangida a ser


apenas torcida quando deveria ser protagonista, a optar por pacotes


políticos prontos que pregam a mútua aniquilação.


Entendo, porém, que o primeiro turno de 2010 trouxe uma reação


clara a esse estado de coisas, um sinal de seu esgotamento. A


votação expressiva no projeto representado por minha candidatura e


de Guilherme Leal sinaliza, sem dúvida, o desejo de um fazer político


diferente.


Se soubermos aproveitá-la com humildade e sabedoria, a realização


do segundo turno, tendo havido um terceiro concorrente com quase


20 milhões de votos, pode contribuir decisivamente para quebrar a


dualidade histórica que tanto tem limitado os avanços políticos em


nosso país.


Esta etapa eleitoral cria uma oportunidade de inflexão para todos,


inclusive ou principalmente para vocês que estão diante da chance


de, na Presidência da República, liderar o verdadeiro nascimento


republicano do Brasil.


Durante o primeiro turno, quando me perguntavam sobre como iria


compor o governo e ter sustentação no Congresso Nacional, sempre


dizia que, em bases programáticas, iria governar com os melhores de


cada partido. Peço que vejam na votação concedida à candidatura do


PV algo que ultrapassa meu nome e que não se deixem levar por


análises ligeiras.


Esses votos não são uma soma indistinta de pendores setoriais. Eles


configuram, no seu conjunto, um recado político relevante. Entendoos


como expressão de um desejo enraizado no povo brasileiro de


sair do enquadramento fatalista que lhe reservaram e escolher outros


valores e outros conteúdos para o desenvolvimento nacional.


E quem tentou desqualificar principalmente o voto evangélico que me


foi dado, não entendeu que aqueles com quem compartilho os


valores da fé cristã evangélica, vão além da identidade espiritual.


Sabem que votaram numa proposta fundada na diversidade, com


valores capazes de respeitar os diferentes credos, quem crê e quem


não crê. E perceberam que procurei respeitar a fé que professo, sem


fazer dela uma arma eleitoral.


Os exemplos de cristãos como Martin Luther King e Nelson Mandela


e do hindu Mahatma Ghandi mostram que é possível fazer política


universal com base em valores religiosos. São inspiração para o


mundo. Não há porque discriminar ou estigmatizar convicções


religiosas ou a ausência delas quando, mesmo diferentes, nos


encontramos na vontade comum de enfrentar as distorções que


pervertem o espaço da política. Entre elas, a apropriação material e


imaterial indevida daquilo que é público, seja por meio de corrupção


ou do apego ao poder e a privilégios; a má utilização de recursos e


de instrumentos do Estado; e o boicote ao novo.


Assim, ao contrário de leituras reducionistas, o apoio que recebi dos


mais diversos setores da sociedade revela uma diferença


fundamental entre optar e escolher. Na opção entre duas coisas précolocadas


e excludentes, o cidadão vota “contra” um lado, antes


mesmo de ser a favor de outro. Na escolha, dá-se o contrário: o voto


se constrói na história, na ampliação da cidadania, na geração de


novas alternativas em uma sociedade cada vez mais complexa.


A escolha, agora, estende-se a vocês. É a atitude de vocês, mais que


o resultado das urnas, que pode demarcar uma evolução na prática


política no Brasil. Podemos permanecer no espaço sombrio da


disputa do poder pelo poder ou abrir caminho para a política


sustentável que será imprescindível para encarar o grande desafio


deste século, que é global e nacional.


Não há mais como se esconder, fechar os olhos ou dar respostas


tímidas, insuficientes ou isoladas às crises que convergem para a


necessidade de adaptar o mundo à realidade inexorável ditada pelas


mudanças climáticas. Não estamos apenas diante de fenômenos da


natureza.


O mega fenômeno com o qual temos que lidar é o do encontro da


humanidade com os limites de seus modelos de vida e com o grande


desafio de mudar. De recriar sua presença no planeta não só por


meio de novas tecnologias e medidas operacionais de sobrevivência,


mas por um salto civilizatório, de valores.


Não se trata apenas de ter políticas ambientais corretas ou a


incentivar os cidadãos a reverem seus hábitos de consumo. É


necessária nova mentalidade, novo conceito de desenvolvimento,


parâmetros de qualidade de vida com critérios mais complexos do


que apenas o acesso crescente a bens materiais.


O novo milênio que se inicia exige mais solidariedade, justiça dentro


de cada sociedade e entre os países, menos desperdício e menos


egoísmo. Exige novas formas de explorar os recursos naturais, sem


esgotá-los ou poluí-los. Exige revisão de padrões de produção e um


fortíssimo investimento em tecnologia, ciência e educação.


É esse, em síntese, o sentido do que chamamos de Desenvolvimento


Sustentável e que muitos, por desconhecimento ou má-fé, insistem


em classificar como mera tentativa de agregar mais alguns cuidados


ambientais ao mesmo paradigma vigente, predador de gente e


natureza.


É esse mesmo Desenvolvimento Sustentável que não existirá se não


estiver na cabeça e no coração dos dirigentes políticos, para que


possa se expressar no eixo constitutivo da força vital de governo.


Que para ganhar corpo e escala precisa estar entranhado em


coragem e determinação de estadista. Que será apenas discurso


contraditório se reduzido a ações fragmentadas logo anuladas por


outras insustentáveis, emanadas do mesmo governo.


E, finalmente, é esse o Desenvolvimento Sustentável cujos objetivos


não se sustentarão se não estiver alicerçado na superação da


inaceitável, desumana e antiética desigualdade social. Esta é ainda a


marca mais resistente da história brasileira em todos os tempos, em


que pesem os inegáveis avanços econômicos dos últimos 16 anos,


que nos levaram à estabilidade econômica, e das recentes


conquistas sociais que tiraram da linha da pobreza mais de 24


milhões de pessoas e elevaram à classe média cerca de 30 milhões


de pessoas.


A sociedade, em sua sábia intuição, está entendendo cada vez mais


a dimensão da mudança e o compromisso generoso que ela implica,


com o país, com a humanidade e com a vida no Planeta. Os votos


que me foram dados podem não refletir essa consciência como


formulação conceitual, mas estou certa de que refletem o sentimento


de superação de um modelo. E revelam também a convicção de que


o grande nó está na política porque é nela que se decide a vida


coletiva, se traçam os horizontes, se consolidam valores ou a falta


deles.


Essa perspectiva não foi inventada por uma campanha presidencial.


Os votos que a consagram estão sendo gestados ao longo dos


últimos 30 anos no Brasil, desde que a luta pela reconquista da


democracia juntou-se à defesa do meio ambiente e da qualidade de


vida nas cidades, no campo e na floresta.


Parte importante da nossa população atualizou seus desafios,


desejos e perspectivas no século 21. Mas ainda tem que empreender


um esforço enorme e muitas vezes desanimador para ser ouvida por


um sistema político arcaico, eleitoreiro, baseado em acordos de


cúpula, castrador da energia social que é tão vital para o país quanto


todas as energias de que precisamos para o nosso desenvolvimento


material.


Estou certa de que estamos no momento ao qual se aplica a frase


atribuída a Victor Hugo: “Nada é mais forte do que uma idéia cujo


tempo chegou”.


O segundo turno é uma nova chance para todos. Para candidatos e


coligações comprometerem-se com propostas e programas que


possam sair das urnas legitimados por um vigoroso pacto social entre


eleitos e eleitores. Para os cidadãos, que podem pensar mais uma


vez e tornar seu voto a expressão de uma exigência maior, de que a


manutenção de conquistas alie-se à correção de erros e ao preparo


para os novos desafios.


Mesmo sem concorrer, estamos no segundo turno com nosso


programa, que reflete as questões aqui colocadas. Esta é a nossa


contribuição para que o processo eleitoral transcenda os velhos


costumes e acene para a sustentabilidade política que almejamos.


Como disse, ousei trazer a vocês essas reflexões, mas não como


formalidade ou encenação política nesta hora tão especial na vida do


pais. Foi porque acredito que há terreno fértil para levarmos adiante


este diálogo. Sei disso pela relação que mantive com ambos ao longo


de nossa trajetória política.


De José Serra guardo a experiência de ter contado com sua


solidariedade quando, no Senado, precisei de apoio para aprovar


uma inédita linha de crédito para os extrativistas da Amazônia e para


De José Serra guardo a experiência de ter contado com sua


solidariedade quando, no Senado, precisei de apoio para aprovar


uma inédita linha de crédito para os extrativistas da Amazônia e para


criar subsídio para a borracha nativa. Serra dispôs-se a ele mesmo


defender em plenário a proposta porque havia o risco de ser


rejeitada, caso eu a defendesse.


Com Dilma Roussef, tenho mais de cinco anos de convivência no


governo do presidente Lula. E, para além das diferenças que


marcaram nossa convivência no governo, essas diferenças não


impediram de sua parte uma atitude respeitosa e disposição para a


parceria, como aconteceu na elaboração do novo modelo do setor


elétrico, na questão do licenciamento ambiental para petróleo e gás e


em outras ações conjuntas.


Estou me dirigindo a duas pessoas dignas, com origem no que há de


melhor na história política do país, desde a generosidade e


desprendimento da luta contra a ditadura na juventude, até a


efetividade dos governos de que participaram e participam para levar


o país a avanços importantes nas duas últimas décadas.


Por isso me atrevo, seja quem for a assumir a Presidência da


República, a chamá-los a liderar o país para além de suas razões


pessoais e projetos partidários, trocando o embate por um debate


fraterno em nome do Brasil. Sem esconder as divergências, vocês


podem transformá-las no conteúdo do diálogo, ao compartilhar idéias


e propostas, instaurando na prática uma nova cultura política.


Peço-lhes que reconheçam o dano que a política atrasada impõe ao


país e o risco que traz de retrocessos ainda maiores. Principalmente


para os avanços econômicos e sociais, que a sociedade brasileira,


com justa razão, aprendeu a valorizar e preservar.


Espero que retenham de minha participação na campanha a


importância do engajamento dos jovens, adolescentes e crianças,


que lhes ofereçam espaço de crescimento e participação. Que


acreditem na capacidade dos cidadãos e cidadãs em desejar o novo


e mostrar essa vontade por meio do seu voto. Que reconheçam na


sociedade brasileira uma sociedade adulta, o que pressupõe que


cada eleitor escolha o melhor para si e para o país e o expresse, de


forma madura, livre e responsável, sem que seu voto seja


considerado propriedade de partidos ou de políticos. Pois, como


repeti inúmeras vezes no primeiro turno, o voto não era meu, nem da


Dilma, nem do Serra. O voto é e sempre será do eleitor e de sua


inalienável liberdade democrática.


Esta é minha contribuição, ao lado das diretrizes de programa de


governo que são um retrato do amadurecimento de quase 30 anos de


construção do socioambientalistmo no Brasil. Espero que a acolham


como ela é dada, com sinceridade. A utopia, mais que sinal de


ingenuidade, é mostra de maturidade de um povo cujo olhar eleva-se


acima do chão imediato e anseia por líderes capazes de fazer o


mesmo.


Que Deus continue guiando nossos caminhos e abençoando nossa


rica e generosa nação.


Marina

Comentários

  1. Bom dia Bete!
    Como lhe agradeço ter-nos dado a conhecer a vossa realidade política. Como essa Senhora põe, generosamente, o dedo em tantas feridas, que não são só do Brasil, mas de Portugal e do Mundo inteiro!!.
    Acredito que os dois candidatos vão interiorizar a mensagem e o Povo Brasileiro, cada vez mais consciente, também lhes irá exigir mais entrega e honestidade.
    Quem dera que também tivéssemos uma leader com esse Saber! Sim, porque se Portugal e o Mundo fossem governados por Mulheres desse gabarito estaria, concerteza, melhor.
    Ela é o Obama do Brasil! Um abracinho!

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  2. Muitas pessoas deixaram comentários duros a ela, em seu site oficial www.minhamarina.org.br , num primeiro momento tb fiquei muito desapontada, mas, depois refleti, e conclui, que ela não tinha outra solução, pois as 2 opções a levariam em contradição a muitas ideologias suas.
    Um Abraço, amiga

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