Não deixa de chover...e numa tarde de domingo, no aconchego do lar, entretendo as horas num dolce far niente, eis que aquela conhecida melodia de gaita de beiços, anunciadora da passagem do amola tesouras, me desperta e me leva a olhar a rua.
E ele vai passando, devagar e olhando as janelas, na esperança de que alguém o chame e lhe mande afiar uma faca, uma tesoura ou até um guarda-chuva!
Num repente, sinto necessidade de o prestigiar...é o termo.
Quero reconhecer-lhe a profissão e agradecer-lhe a presença...
Penso que qualquer arranjo que ele faça, nesta sociedade consumista, ficará mais caro que comprar novo numa qualquer loja chinesa, mas...
não resisto e chamo-o.
O homem quase nem acredita...a crise também lhe tirou clientes..
Pego numa velha tesoura Singer, paralisada há muitos anos numa caixa de costura, mas de que nunca fui capaz de me despedir...
Dou-lha para a mão e pergunto:
-quanto custa o conserto?
- 5 euros, senhora!
Era o que eu previa...uma conta certa...
Arrisquei e, minutos depois, já ma entregava, afiada, oleada e a cortar mesmo!
O homem segue o seu caminho, continua a anunciar a sua passagem e eu apercebo-me de que continua a chover.
Num dia soalheiro ele seria prenúncio de chuva próxima...Hoje, trouxe-a a reboque...
Querida amiga
ResponderExcluirTambém aqui no Brasil estas figuras estão cada vez mais escassas. Não só o amola tesouras, como também aqueles que, antigamente, vendiam frutas, legumes e verduras. Outros a vender queijos... peixes...
Com as facilidades dos super/hiper/mercados foram desaparecendo os pequenos comerciantes. Há muitos anos atrás, quem se propunha a deixar um emprego para estes pequenos "biscates" acabava ficando rico, pois havia campo para expansão. Hoje, cada vez mais o humano se debruça em livros, diplomas, pós graduações, e, mesmo assim não conseguem enriquecer, pois o que era deles, agora é dos grandes conglomerados.
Mesmo com todas as revoluções havidas e conquistas alcançadas, parece que o capitalismo adentrou pelas veias das civilizações, consumindo-as e consumindo suas ideologias...A nós resta-nos o conformismo (?)... a luta (?)... ou as recordações transcritas, como neste lindo texto da amiga.
Adorei!!!!